A temporada de caça aos buracos de Natal
Chegou o inverno em Natal. Não, não estamos falando da chuva. Estamos falando da época de reprodução dos buracos.
É um fenômeno da natureza urbana. Cai a primeira chuva e eles começam a surgir por toda parte. Um hoje, dois amanhã, cinco na semana seguinte. Parecem coelhos: quando você percebe, já tomaram conta da cidade.
Os especialistas ainda discutem a origem da espécie. Mas há um consenso científico entre os natalenses: boa parte nasce depois que a Caern resolve fazer uma intervenção.
A cena já virou tradição. A equipe chega, abre um buraco impecável, trabalha, fecha, ou melhor, faz um “até logo”. Dias depois, o asfalto começa a afundar, cria uma lombada, uma vala ou uma escultura abstrata que desafia as leis da engenharia e da paciência.
A impressão é que existe um curso chamado “Como deixar o remendo mais desconfortável que o buraco original”. E os alunos são aplicados.
O curioso é que a Caern não conserta apenas tubulações. Ela remodela o relevo da cidade. Onde havia uma rua plana, nasce uma pista de motocross. É urbanismo em três dimensões.
Mas também não dá para deixar a Prefeitura escapar dessa conversa.
É verdade que muitos dos buracos têm certidão de nascimento emitida pela Caern. Só que, depois que eles entram para a vida adulta, alguém precisa cuidar deles.
E justamente na época das chuvas, quando os buracos se reproduzem numa velocidade impressionante, seria bom que a operação tapa-buracos entrasse em campo com mais intensidade.
Porque, convenhamos, esperar o verão para tapar buraco em pleno inverno é como chamar o salva-vidas quando o banhista já voltou para casa.
Natal já poderia, inclusive, criar um calendário oficial:
Janeiro: verão.
Junho: São João.
Julho: Festival da Multiplicação Espontânea dos Buracos.
Os motoristas já desenvolveram habilidades extraordinárias. Há quem consiga atravessar um quarteirão inteiro sem cair em nenhuma cratera. São candidatos naturais às Olimpíadas. Não dirigem. Fazem slalom.
Os motociclistas merecem um seguro emocional. Cada rua é uma prova de resistência.
E os mecânicos? Esses talvez sejam os maiores entusiastas da parceria involuntária entre chuva, Caern e buracos. Suspensão, amortecedor, pneu e alinhamento nunca tiveram tanta demanda.
No fim das contas, a cidade parece viver uma curiosa divisão de tarefas: a Caern cria boa parte dos buracos, a chuva faz a manutenção e a Prefeitura corre atrás do prejuízo – quase sempre mais devagar do que eles conseguem nascer.
Enquanto isso, o natalense segue fazendo o que sabe fazer melhor: desviar. Desvia dos buracos, desvia dos remendos malfeitos, desvia das desculpas e torce para que, um dia, a engenharia vença a biologia.
Porque, do jeito que está, os buracos de Natal não são um problema de infraestrutura.
Já são uma espécie nativa.
P.S.: Se você achou que este texto tem um certo tom de indignação, acertou. A inspiração veio depois que um buraco resolveu rasgar o pneu do meu carro. Há quem faça terapia. Eu escrevo.