Se tem uma coisa que o mundo aprendeu nos últimos tempos é que, quando o assunto é tarifa de importação, o calendário internacional passou a seguir o fuso horário de Donald Trump.
A cada semana, às vezes, a cada dia, quase como quem anuncia a previsão do tempo, surge uma nova ameaça tarifária. Possibilidade de sobretaxa no aço pela manhã, com pancadas de imposto sobre o agronegócio à tarde. E assim seguimos, todos de guarda-chuva aberto, não contra a chuva, claro, mas contra o imposto.
O curioso é que estamos falando dos Estados Unidos, aquele mesmo país que passou décadas subindo em púlpitos globais para defender o livre comércio e condenar o protecionismo como heresia econômica. Agora, aparentemente, heresia é não ter uma tarifa nova para anunciar.
E não escapou ninguém. Europa, Ásia, América Latina… até o Brasil entrou na lista. Exportar passou a exigir mais análise política do que estudo de mercado.
O discurso tarifário de Trump para o mundo lembra o discurso de aumento de impostos do Governo Federal para o brasileiro: sempre há um novo anúncio, uma nova justificativa e, claro, uma nova cobrança. A diferença é que, nesse caso, a fatura chega em escala global.
No fim das contas, o que se vê é uma guinada histórica. O país que liderou a cruzada contra o protecionismo agora flerta com ele sem constrangimento. E, junto com a coerência do discurso, parecem ter sido taxadas também as boas oportunidades de negócio.
E assim, entre anúncios e sobretaxas, o livre comércio vai sendo lembrado apenas como um produto antigo, retirado de circulação por falta de coerência no estoque.